A Dor da Perda de Quem Mora Longe

Quando a gente escolhe morar longe de quem ama, essa decisão vem carregada de pensamentos, sentimentos (bons e ruins), medos — e muita coragem também. Cada pessoa sente de um jeito, mas existe um medo silencioso que habita dentro de todos que fazem essa escolha. A gente tenta não pensar nisso. Tenta acreditar que ainda vai ter tempo. Que as mensagens e as chamadas de vídeo vão bastar... por enquanto.

Mas ninguém está preparado para o dia em que esse medo vira realidade.

Perder alguém já é devastador. Perder alguém estando longe é ainda pior.
Vem a culpa por não ter estado por perto, por não ter aproveitado mais o tempo, por não conseguir se despedir.

Hoje faz dois meses e sete dias que perdi meu pai. Foi inesperado. Um acidente. E, até agora, o pior dia da minha vida. Na primeira semana, eu não via luz no fim do túnel. Não conseguia me imaginar vivendo de novo, seguindo em frente, sem falar na culpa em seguir. Eu fiquei totalmente devastada. Como seguir, se meu pai tinha acabado de morrer?

Acredito que a maioria das pessoas que me acompanham não saiba, mas eu era muito próxima do meu pai. Se eu pudesse, teria trocado de lugar com ele sem pensar duas vezes. Mas sei que ele nunca aceitaria isso. Então, aos poucos, percebi que escolher viver também era uma forma de honrá-lo.

Sou alguém que costuma se isolar em momentos assim — até mesmo do meu marido, às vezes. Mas percebi como é importante ter uma rede de apoio. A terapia, que eu já faço há quase sete anos, também me ajudou muito. Meu marido ficou o tempo todo comigo. Recebi muito carinho da minha família, de amigos incríveis e de colegas de trabalho muito queridas.
Uma amiga me disse: “Se você não consegue seguir por você, segue pelas pessoas que ficaram. Pelo seu marido, pelo seu irmão, pela sua mãe.” E foi o que eu fiz.

É curioso como, depois de perder alguém, tudo passa a lembrar essa pessoa.
Coisas que antes não trariam memória alguma agora trazem uma saudade enorme. Porque, quando ele não está mais aqui, tudo muda.

Todo mundo diz que “só o tempo cura”. Nos primeiros dias, essa frase parecia vazia. Mas hoje, mesmo ainda com dor, posso dizer que ela carrega verdade.
No começo, eu vomitava, não comia, chorava muitas vezes por dia.
Depois, voltei a comer.
Passei a chorar menos.
Até que passou a ser uma vez por dia… e agora, nem todo dia.
Enfrentei também a culpa de permitir que a vida seguisse. A culpa de sorrir outra vez, de sentir alegria, de viver momentos bons em meio a tristeza, como se isso significasse que doeu menos.
Achei que fosse demorar mais para chegar aqui. Mas o luto não é linear — tem dias bons, e tem dias que doem de novo. Estou me acabando de chorar escrevendo isso, mas sei que respeitar os nossos sentimentos é parte essencial do processo.

Tive o privilégio da escolha: pude decidir ir ao Brasil, pegar um avião, e conseguir me despedir.
Mas nem todo mundo tem essa chance. Às vezes, o próprio tempo de voo não permite, fora os preços e horários.
Todo mundo sabe o quanto uma passagem de última hora pode ser cara. No nosso caso, tivemos uma ajuda da Latam — entramos em contato, explicamos o motivo, e eles reembolsaram 30% do valor. Não é uma situação que alguém espera passar. Mas, se acontecer, que essa dica possa ajudar alguém também.

Aos poucos, mesmo com a dor presente, estou seguindo a vida. Voltei para o trabalho, voltei a encontrar os amigos, voltei hoje com o blog — e acho que o mais importante: voltei a fazer tudo isso por mim também.

Eu não sei exatamente qual é o meu objetivo escrevendo esse post aqui. Talvez eu só tenha sentido que precisava compartilhar esse desabafo/reflexão. Apesar de me sentir um pouco exposta, também é bom falar como foi — e está sendo — esse processo.

Quero deixar claro que, ao compartilhar minha experiência morando em outro país, não quis em momento algum menosprezar a dor de quem vive outra realidade. Por um lado estar longe foi muito difícil, por outro, talvez o fato de estar longe — de não ter meu pai mais na rotina — torne o processo de seguir em frente um pouco menos doloroso em alguns momentos.

É isso. A vida segue — com saudade, com dor — mas ele vai estar sempre aqui comigo, em tudo que eu faço, em tudo que eu sou.

Comentários

  1. Me emocionei lendo, Le!! Eu admiro tanto você e a sua força!! Seu pai está muito orgulhoso de você ❤️ Sinta-se abraçada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo carinho, Isa!! <3 Apesar de difícil, também foi bom me sentir pronta escrever sobre isso! Me senti realmente abraçada, obrigada <3

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Estamos de mudança

Depois de 3 anos: como está a minha vida na Alemanha?

Mudando de Trabalho na Alemanha como Enfermeira